A ESCOLA E A MEMÓRIA
A escola hoje talvez seja a única instituição onde a história da transmissão do saber não se altera. Há séculos que a máxima da educação no Brasil e no mundo é: “Ensinar para lembrar e lembrar para aplicar” que, em outras palavras, seria: “transmitir o conhecimento para o espaço da memória e quando o ser humano necessitar é só acionar este arquivo (memória), lembrar e executar”. Portanto, todas as escolas trabalham com os fundamentos para acionar as lembranças.
Vejamos, ao lembrarmos de algo passado, nossa lembrança é alterada pelo “meio” do presente (estado emocional, cores, olfatos, sabores, ruídos, etc.). Desse modo, dificilmente teremos a lembrança exata de verbos, pronomes e substantivos, porque fazemos o processo da reconstrução de novos pensamentos e visões interiores, mas não na exatidão daquilo que havíamos pensado outrora. Segundo Augusto Cury (psicólogo), “nossa memória é especialista em criar novas idéias, usando o passado como alicerce”. Porém, a escola insiste num método que vai na contramão da natureza humana, isto é, vai contra a capacidade criativa da memória. A escola e seu sistema há séculos ensinam do mesmo modo, do mesmo jeito, visa tão somente repassar informações em grandes quantidades para a memória em formação do aluno. Não é por menos que muitos alunos não suportam escolas, pois a mesma castra, sem piedade, uma das mais belas características do ser humano que é o ato de criar. Uma memória suprida de informações, das quais, algumas nem fazem sentido para o universo (“meio”) do aluno, não é nada mais que uma guardiã de informações. Nossa civilização carece de novos gênios, homens e mulheres, que possam criar de verdade o novo, o inusitado, e não apenas, repetidores do saber.
Na psique, segundo a psicologia, tudo é superado e reconstruído, portanto, a memória que é parte integrante de todo o complexo da psique, deve criar e para isso, a educação e a escola devem proporcionar as devidas atribuições. E isto, exige urgentemente mudanças radicais no sistema (entenda-se por sistema todo o “corpo” da escola, ou seja, direção, professores, funcionários, alunos...). As provas, nunca, jamais conseguem medir a capacidade ou a arte de criar, porém, são excelentes para medir a capacidade da memória para repetir aquilo que o professor já sabe. A prova estabelece um esplêndido triunfo: anula o raciocínio brilhante. A quantidade de informações que o aluno recebe é estressante; perde-se no labirinto da memória.
Podemos, sem sombra de dúvidas, afirmar que o modelo de escola no nosso país e no mundo privilegia a memória como um depósito de conhecimento e que, portanto, não forma pensadores, mas aprendizes de papagaios, repetidores. O objetivo da memória, com certeza, não é esse. Sua meta é o raciocínio criativo e até esquemático, organizacional, mas não lembranças exatas.
Valmir C. Fontana.
Professor de Filosofia
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